Associação de Valorização do Património Cultural e Ambiental de Olhão

Rumo ao Brasil

Nota prévia: artigo publicado n'O Olhanense de 15 de Julho de 2007

RUMO AO BRASIL

                      Aproxima-se o ano da comemoração dos duzentos anos da ida dos pescadores olhanenses ao Brasil (1808 - 2008) a bordo do Caíque Bom Sucesso, para anunciarem ao Rei D. João VI o  levantamento popular contra os franceses que resultou na sua expulsão, com a consequente  restauração da independência e soberania nacional. Por se tratar do episódio mais relevante de todo o passado de Olhão, que coincide com mais uma anunciada chamada geral (nacional e internacional) para o reconhecimento da importância que têm os oceanos, um grupo de cidadãos  propôs à Câmara Municipal de Olhão que tome a liderança num projecto que, duzentos anos depois, coloque novamente um caíque olhanense (a réplica do Caíque Bom Sucesso) a atravessar o Atlântico, homenageando com real simbolismo, a coragem e valentia da tripulação comandada pelo Mestre Manuel Martins Garrocho. O projecto consiste,  numa primeira fase, em estimular uma forte   e activa participação de toda a comunidade (principalmente ao nível das escolas), permitindo que a mesma se encontre com a história local e nacional. Depois, numa segunda fase, o protagonista seria o caíque Bom Sucesso, com a realização da viagem até ao Brasil, invocando a revolta dos olhanenses contra os franceses e o anúncio da libertação levada ao rei, simultaneamente com a mensagem de preservação dos oceanos. O plano, assim concebido, na óptica dos promotores, proporciona a Olhão um excelente motivo para se destacar nacional e internacionalmente, dada a singularidade do barco, bem como a invocação da travessia.

                      A esta proposta, veio a CMO responder afirmativamente, nos termos noticiados em 19 de Março de 2007, através da página on-line do jornal Barlavento,  onde se diz, inclusivamente,  que a viagem a realizar ao Brasil,  pela réplica do Caíque Bom Sucesso, será integrada nas comemorações oficiais que a CMO já está a programar. Contudo e contraditoriamente, em entrevista concedida ao Jornal do Algarve, do dia 14 de Junho do corrente ano, o Presidente da Câmara Municipal de Olhão, referindo-se às comemorações dos 200 anos da revolta contra os franceses, não faz nenhuma alusão à viagem em causa. Certo é que o tempo urge e uma iniciativa destas, para ser bem sucedida, atingindo em pleno os objectivos, requer muita dinâmica, estratégia e organização, o que apenas se obtém através de um empenhamento profundo e interessado, sem quebras, dúvidas ou omissões. Na parte que cabe aos cidadãos promotores da iniciativa (entretanto constituídos em comissão), o empenho  na viagem da réplica do caíque Bom Sucesso ao Brasil, é total. Dai que, conscientes do momento grande que Olhão pode desempenhar no próximo ano, à escala nacional e internacional, continuem a solicitar à CMO  que venha ao terreno demonstrar inequivocamente o empenho anunciado em 19 de Março de 2007, através da página on line do jornal Barlavento. Inclusivamente, a exortação de participação e liderança da iniciativa dirigida à CMO, foi acompanhada de outras solicitações de participação visando outras entidades, tendo estas, desde logo, manifestado inequívoco apoio, oferecendo-se para relevar os momentos cruciais do evento (como é o caso, entre outros, do canal televisivo National Geografic ou Film Comission). Também se apresentou à CMO um mapa de eventos  náuticos onde o caíque, numa fase preliminar, poderia participar (regatas de veleiros) que, pela visibilidade que têm,  imediatamente catapultariam Olhão para os escaparates e para as notícias (mais do que proporciona o sono longo e forçado do barco junto às praças). Posteriormente, concretizar-se-ia então a viagem ao Brasil, culminando a mesma com as comemorações de 2008.

                      Postas as coisas neste pé e enquanto se aguarda que a CMO avance decididamente para o planeamento do evento "Rumo ao Brasil" (o que tarda, permitam-me), a Associação Nacional de Cruzeiros, sem dúvidas ou hesitações,  já se disponibilizou para integrar a partida do caíque numa regata de veleiros que vai até à Madeira, seguindo depois para Babo Verde, de onde rumará directamente ao Brasil. Da mesma forma entusiasta, também sem dúvidas ou hesitações, alguns elementos da Marinha de Guerra Portuguesa, onde se destaca um oficial de alta patente, contactou a comissão, no sentido de apoiar e integrar o evento.

                      Face a esta decorrência, os membros da comissão estão convictos de que a iniciativa que desenvolvem na repetição da viagem do caíque Bom Sucesso ao Brasil, tem a sua razão de ser na dedicação que nutrem por  Olhão e pela sua história, sendo esta a melhor forma de homenagear a revolta contra os invasores franceses, bem como  os inúmeros mareantes e pescadores olhanenses que, no mar, deram os melhores e magníficos exemplos de bravura, onde indubitavelmente se inserem, entre outros,  o Mestre Manuel Martins Garrocho, o piloto Manuel Oliveira Nobre, os tripulantes António da Cruz Charrão, António Pereira Gémeo, António dos Santos Palma, Domingos do Ó Borrego, Domingos de Sousa, Francisco Lourenço, João Domingos Lopes, João do Moinho, Joaquim do Ó, Joaquim Ribeiro, José da Cruz, José da Cruz Charrão, José Pires, Manuel de Oliveira, Pedro Nimil e Francisco Domingos Machado (mareantes do caíque Bom Sucesso que levaram a notícia da restauração ao Rei D. João VI).  

                      Conscientes da enorme responsabilidade, presente e futura, que insere o plano "Rumo ao Brasil",  a comissão de promotores têm a intenção de documentar, em livro, todos os factos referentes ao projecto, desde a génese, até ao final. A publicação conterá o relato da execução de todos os trabalhos, participações e envolvimentos, com nomes (todos) e factos detalhados, acompanhados da documentação de suporte  (cartas, ofícios, e-mail's, notícias de imprensa, etc). Este será, certamente,  o melhor testemunho que ficará para a história, perpetuando derradeiramente o resultado da iniciativa e a forma como a mesma culminará em todos os seus contornos e vicissitudes. Depois, quando daqui a cem anos se falar na comemoração dos então trezentos anos da revolta dos olhanenses contra os invasores franceses, certamente  o livro editado pela comissão será um precioso documento de estudo, análise e compreensão dos factos atinentes à iniciativa "Rumo ao Brasil"/2008. Nessa altura, já nenhum dos presentes, directa ou indirectamente participantes, figurará entre os vivos, mas a maneira como se configurou face à dinâmica do plano continuará latente, como um legado que fica para os netos,  uma espécie de condecoração de honra a encontrar nas páginas que verterão o testemunho. Mas também pode acontecer o contrário e a  compilação de factos a editar pela comissão será, para os vindouros,  motivo de...

                       Uma coisa é certa, a  História apenas concede duas vias e  não permite  simultaneidade de rumos: a  primeira é a via da honra, na continuação de factos praticados pelos antepassados (os mesmos que se pretende homenagear),  a segunda é  a antítese. Agora, cada  um que faça a sua opção.

 

                                                                    Abúndio Martins de Sousa